sábado, 9 de março de 2019

Trilateração e geolocalização

O programa do Clube Arribada, de Ciência Computacional e Tecnologias da Conservação, culmina na aplicação prática dos conhecimentos aprendidos com a tecnologia GPS. Analisam a movimentação do Sokis - cão mascote da ilha - em analogia com o trabalho dos biólogos no estudo das tartarugas marinhas. 
É incrível como vou aprendendo ao longo do processo, aplicações tão corriqueiras da minha vida cujo funcionamento nunca questionei. E é esta a partilha que trago hoje, num jeito meio envergonhado e na esperança de que também alguém por aí aprenda algo com isto.
Sabem como funciona o GPS (Global Positioning System)? Por satélites, é verdade. Mas como exatamente?
A trilateração é o princípio matemático que determina a localização de um corpo ou objecto, através da informação transmitida por satélites. Para cobertura total do nosso planeta existem 30 satélites, mas não precisamos de os consultar a todos ao mesmo tempo. Para determinação da localização exacta são necessários três satélites, em que cada um deles emite a distância a que nos encontramos dele - o conjunto de pontos possíveis origina uma circunferência com o raio da distância emitida. 
Assim, quando consultamos um satélite, recebemos um vasto conjunto de localizações possíveis. Ao consultar o segundo satélite, reduzimos para duas localizações - pontos de intercepção das duas circunferências. E na terceira consulta, obtemos a localização exacta, representada pelo ponto intercepção entre os três sinais recebidos.
Na nossa sala, começámos por exemplificar o fenómeno com hula hoops, passando depois à prática com o mapa mundo cartonado sobre esferovite e uma representação física dos respectivos satélites, estudando diferentes trajectos.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Do não-birdwatch à birdlife

Mais um dia no mar, ainda mais desafiante que o anterior. O destino foram as Tinhosas - ilhas rochosas, a 22 km a Sudoeste do Príncipe, consideradas a mais importante zona de nidificação de aves marinhas no Golfo da Guiné - e a partida tinha sido agendada para as 5h30, que a logística era ainda complexa. 
Onze pessoas, incluindo duas visitantes; cinquenta pães, atum, marmelada, fiambre, bolachas, sumos e água; cinco câmaras de vigilância, para estudar o comportamento das aves e dos pescadores que frequentam as ilhas, e mais uns quantos acessórios para o trabalho de campo da equipa.
Saíamos já um dia depois do previsto, devido a questões climatéricas. O temporal de 6ª feira obrigara o comandante Vavá a adiar a expedição para o dia seguinte. Encontrámos-nos no escritório da Fundação Príncipe Trust - agora apenas Fundação Príncipe -; carregámos o carro e saímos, com mais de meia hora de atraso, em direcção à Sundy Praia, de onde o barco do hotel de cinco estrelas nos levou ao destino. Felizmente, o mar estava agradavelmente calmo, reduzindo o tempo da travessia de duas horas para uma e meia, com um incrível nascer-do-sol sobre o Príncipe.
O território é composto por duas ilhas - Tinhosa Grande, que se estende por vinte hectares, e Tinhosa Pequena, de apenas três - ambas habitadas por quatro espécies de aves. A saber: Caié-branco, Caié-preto, Paiê e Pato-marinho. 
O objetivo da visita era a monitorização dos pássaros e, assim, após o "mata-bicho" - designação local para o pequeno-almoço -, dividimos-nos em dois grupos e demos início às contagens. Na ilha grande, marcámos várias quadrículas de 100 m², em zonas planas, semi-inclinadas e inclinadas, nas quais contabilizámos ovos, crias bebés e fêmeas no ninho. A partir da amostragem, a contagem final será depois extrapolada para a totalidade dos 22 hectares da ilha. No caso do Pato-marinho, espécie mais ameaçada, o exercício é mais preciso, percorrendo a ilha toda para a contagem em rigor, sem amostragem. Esta é também a única espécie contabilizada na Tinhosa Pequena, que é efectuada pela equipa - a olho nu ou com a ajuda de binóculos - a partir do barco, devido à pequena dimensão da ilha. 
O desembarque foi um pouco assustador pela quantidade de aves a voar em todas as direcções, mas, no final do dia, a experiência foi fantástica! Confesso ter aceite o desafio por curiosidade em conhecer os ilhéus e pelo passeio de barco, que tanto gosto. Não esperava, contudo, participar no trabalho da equipa de Conservação Terrestre. Não fazia ideia do que a equipa ia fazer, nem tão pouco esperava aguentar tantas horas numa ilha repleta de aves. Foi uma bela e agradável surpresa, mesmo com a grande chuvada que nos alcançou e me fez abrigar no recanto de uma rocha.
Dever cumprido, fui a única a banhar-me nas águas do Atlântico antes de regressar. Agora, deixo-vos com as imagens destas magníficas espécies, que se refugiam nestes ilhéus isolados para procriar ao ritmo de coelhos.


sábado, 9 de fevereiro de 2019

Discovery shots and action 🎬🎥

Ontem foi dia de sair para o mar com o Guillermo e a equipa marinha. Foi tempo de conhecer o seu trabalho de investigação para potencial definição de Área Marinha Protegida. Guillermo, Bizantino, Lindo e Zélinho, na fotografia, embarcaram no que seria o último dia de amostragem do BRUV (Baited Remote Underwater Video) - uma metodologia não invasiva que permite registar a presença, abundância e comportamento de espécies predadoras de peixes. 
Saída marcada para as 6h30. Cinco câmaras GoPro, com os devidos acessórios e apetrechos, desenhados com a perícia própria de engenheiro, 3 kg de peixe e farnel para a equipa. Antecipava-se um longo e duro dia pela frente, milhas consideráveis a percorrer, para gravar os nove restantes pontos. Saímos da baía de Santo António, pelas águas cristalinas do Atlântico - surpreendentemente calmas para o costume - e navegámos em direcção ao Sul. Passámos Pontamina, Abade, Nova Estrela, Terreiro Velho, a praia Abelha e a cascata "Oquê Pipi". Entrámos em território ainda desconhecido para mim e a equipa começou a arranjar o peixe e preparar o isco. Aproximámos-nos do Boné do Jóquei - ou Ihéu Caroço -, dobrámos a Ponta Café e a Praia Grande do Infante, onde deixámos o Lindo, guarda marinho, no seu dever de monitorização das tartarugas. Estávamos, então, na principal zona de recolha dos dados em falta, onde largámos as cinco câmaras da primeira ronda das filmagens, entre Pico Negro, Portinho e Boné. Era já tempo para almoçar. Aproveitando os 90 minutos de gravação, subimos ligeiramente, para que o barco não interfisse com a circulação dos peixes. E abrigámos-nos da chuva, que entretanto nos alcançara, num longo e quente banho de mar.
O dia já ia alto quando recolhemos as câmaras e, por isso, o regresso foi também mais célere. O Lindo reembarcou, trazendo coco fresco para todos. Abriram os cocos com leves pancadas de um pau - como é que fazem isto!? - e gozámos o final da tarde numa animada e rica conversa sobre os costumes locais e as perspectivas futuras. 
Desde abril do ano passado, o Guillermo gravou mais de 280 horas de vídeo em 28 dias de trabalho de campo, captando imagens de mais de 95 espécies diferentes, incluindo tubarões, raias e polvos, que podem ver abaixo. Durante os próximos meses, continuará a analisar os vídeos para perceber a distribuição de espécies de peixes ao redor da ilha, de modo a identificar áreas prioritárias para a conservação e a gestão das pescas.
Bom trabalho, rapazes, e o meu muito obrigada pelo dia, ensinamentos e partilha.

sábado, 19 de janeiro de 2019

Viagem pela ilha grande - parte I

"Ano novo, vida nova", diz o ditado. Todavia, passadas as festividades, é tempo de voltar à secreta "terra do nunca", onde nada parece ter mudado desde que parti.
A passagem por Lisboa foi rápida, inclusive com uma viagem ainda mais intensa e interessante por Londres, mas extremamente revigorante. Contudo, esta correria de imigrante tem o que se lhe diga. Matar saudades da família e amigos, visitar os recentes pais e os que passam o primeiro Natal de coração mais apertado... A agenda era longa e o desafio estava em conciliar disponibilidades e aproveitar o tempo livre de quem sobrevive na azáfama do dia-a-dia.
Por seu lado, o regresso ao golfo equatorial, depois de umas semanas de privilégio europeu, sobretudo após a abundância da época natalícia, torna ainda mais especial este exercício de introspecção e perspectiva. O Natal é, para mim, tempo de família. Custar-me-ia bastante, se não tivesse possibilidade de ir a casa nesta altura - sobretudo no primeiro Natal sem a matriarcal avó Mimi -, mas confesso ter alguma curiosidade acerca do Natal no calor e praia, que me contam os meus alunos e amigos da terra.
Na volta, aproveitei a paragem obrigatória em São Tomé para uma pequena exploração do Sul e Centro da ilha grande deste arquipélago. Os passeios pelo centro da capital, particularmente comprar o que quer que seja no mercado, revela-se uma verdadeira experiência sociológica, pelos dialectos que se sobrepõem, pela flutuação de preços e pelas  tentativas para captar a atenção dos visitantes. A aceleração da cidade dilui-se na imensidão da baía Ana Chaves, acompanhada pela longa marginal circundante. Como não poderia deixar de ser, as iguarias gastronómicas surpreendem a cada esquina - da barriga de andala (espadarte) da Tia Léu, no parque popular, e Papafigo ao sumo de sape-sape do Xico's e limonada ou sumo de maracujá do Jasmim, junto à Casa da Cultura, sem esquecer a degustação na fábrica de chocolate de Cláudio Corallo, que apenas desilude por um lapso publicitário. Anunciam visita à fábrica e degustação quando na realidade fazem uma explicação do processo de colheita e processamento do cacau - magnífica exposição, porém sem entrada na fábrica propriamente dita. Não nos demorámos muito na cidade, pelo que não tivemos oportunidade de exibir os desengonçados passos de kizomba no Pirata (discoteca local), explorando antes a vida nocturna no Pico Mocambo, assim como a "gravaninha" de sua especialidade - cocktail de rum aromatizado, à base de cana de açúcar, preparado com gelo e lima, que rouba o nome à pequena estação seca do ano. 
A partir da cidade, cerca de 15 minutos para o interior, encontramos a Trindade e, mais adiante, a roça Monte Café, a Casa Museu Almada Negreiros - casa onde nasceu o artista e, hoje, se pode provar uma interessante degustação gastronómica de produtos locais -  e a imponente cascata de São Nicolau, que não tive oportunidade de conhecer devido às chuvas.
Seguimos para Sul, para descanso e relaxe antes de voltar ao trabalho. A estrada é longa e bastante acidentada, pelo que demorámos cerca de três horas até Porto Alegre. Na primeira metade do caminho, cruzamos Santana e a zona dos surfistas, roça Água Izé, Bombaim e São João de Angolares - onde poderá valer a pena dormir e, sem sombra de dúvida, reservar almoço do chef João Carlos Dias. Em direcção ao Sul, encontramos a alegre vila piscatória de Ribeira Afonso, mesmo à beira da estrada. Era dia de festa na comunidade - que pena já termos almocado!... Passando o ilhéu das Rolas, no qual se localiza o marco do Equador, chegamos à zona das mais bonitas praias da ilha - Piscina, Inhame e Jalé - e resorts para um pleno retiro espiritual e desova de tartarugas, como a de Couro - ou Ambulância, como lhes chamam por cá -, cujo rasto mostro na imagem.
Já tenho saudades do Príncipe, mas deixo a ilha grande com pena e promessa de voltar, na Páscoa ou no final do ano lectivo. Daí o nome da publicação. 
Até já! Leve, leve.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Balanço trimestral do Clube Arribada


Quase três meses depois do início das aulas, permanecem cerca de 50% dos alunos. Não é fabuloso, mas também não é mau. No Clube Arribada, os alunos não têm avaliação, dependendo a sua permanência exclusivamente da respectiva assiduidade. 
Um Clube extra-curricular, que oferece aulas gratuitas de Ciência Computacional, Programação e Tecnologias da Conservação, mas o que é isto, afinal? Há já três anos que o Francisco desenvolve um programa orientado para as STEM (Science, Tecnology, Engeneering and Mathematics) como introdução à tecnologia e sua aplicação na área da conservação. Sempre num registo muito prático, intercalam-se módulos com e sem computador. As actividades desenvolvidas pretendem ser análogas ao trabalho de campo em que a Iniciativa Arribada está envolvida - neste caso, com os dispositivos de marcação das tartarugas marinhas. Começámos pelo sistema binário e unidades de armazenamento de informação. Mais tarde, entre outras coisas, os alunos aprenderão coordenadas geográficas, posicionamento GPS e sistemas de rastreamento. 
Ao início, as crianças atropelam-se de entusiasmo, enquanto se adaptam a um novo regime de ensino - próximo, interactivo, colaborativo, individualizado. Há que lembrar que as turmas da escola têm mais de 40 alunos e o professor tende a permanecer no quadro a falar apenas para a meia dúzia de alunos que resista à desordem instalada. Impacientes com o dia em que poderão ver e mexer num computador, alguns acabam por desisitir ou ficar de fora por excesso de faltas, apesar dos avisos. Ao chegar o grande dia, formaram duplas de trabalho e a decepção de ter de partilhar o computador rapidamente deu lugar a um espírito de entreajuda, bem como a pequenas competições e desentendimentos próprios da idade.
A sede de aprender é imensa e os desafios enormes, quer pela natural necessidade de adaptação da linguagem, quer pela dificuldade de concentração. Mas é fabuloso ver a sua evolução ao longo do tempo e, sobretudo, a perspicácia com que uns e outros não param de nos surpreender a cada dia.
Pontos altos até agora: as novas parcerias e aulas especiais, sobre a fibra ótica e a velocidade da luz, com a CST - Telecomunicações de São Tomé, e a Skype class para Portugal, com a Park Internacional School. Para o próximo semestre, iniciar-se-ão na programação, geolocalização e espécies ameaçadas, com a tão esperada visita à praia de desova das tartarugas marinhas, enquanto os mais velhos explorarão a sua criatividade dando os primeiros passos em impressão 3D.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Um sábado ambiental

Um fim-de-semana diferente, com o projecto Bumbu d'Iê pela preservação do ambiente, promovido pela COOPAPIP - Cooperativa de Apicultores da Ilha do Príncipe - e pela Fundação Príncipe Trust. O projecto, cujo nome significa "abelha da ilha" visa promover a apicultura sustentável, que é como quem diz em equilíbrio com a natureza. 
Sabiam que antigamente (e, infelizmente, ainda hoje) se queimavam colmeias e o respectivo enxame para produzir mel? Eu, confesso, nunca me tinha questionado sobre o processo de colheita, mas não poderia imaginar tal atrocidade. Atrocidade para com as abelhas, que morrem queimadas, e para connosco, que comemos um mel impuro, com cera e abelhas à mistura. A equipa Bumbum d'Iê tem vindo a formar e capacitar os membros da Cooperativa de Apicultores para que possam desenvolver a sua atividade de forma mais cuidada, saudável e sustentável. Com o seu apoio, espera-se vir a produzir o primeiro mel sustentável da ilha do Príncipe; ou seja, o primeiro mel produzido de forma natural, sem queimar abelhas e colmeias. De que forma? Apanhando e transferindo colmeias para caixas Langstroth, nas quais as abelhas constroem os favos em caixilhos de madeira, facilmente removíveis e, sobretudo, sem prejudicar as abelhas.

Mas voltemos ao sábado... A comunidade da Ponta do Sol era o destino e esperava-nos uma manhã de actividades ambientais para envolvimento com a comunidade na conservação da biodiversidade do Príncipe. O programa indicava a realização de inquéritos sobre o conhecimento geral das abelhas e apicultura; uma ligeira palestra e apresentação do projecto Bumbu d'Iê; um filme animado para os mais pequenos e uma futebolada para os graúdos. Contámos ainda com a grande surpresa e participação especial de Martina Panisi, responsável pelo Forest Giants Project, para conservação do Búzio do Obô.
O búzio gigante - de nome científico Archachatina Bicarinata e também designado localmente por “búzio preto” ou “búzio do mato", pelo habitat onde vive - é uma espécie endémica de São Tomé e Príncipe, bastante apreciada pelas iguarias alimentares preparadas com o animal e pelas propriedades terapêuticas da sua casca. Nos últimos anos, tem-se observado um preocupante declínio da população desta espécie, classificada como "vulnerável" pela Lista Vermelha da IUCN, o mais fraco dos estatutos de espécies ameaçadas, e em risco de se tornar "em perigo".
Foi um dia em pleno, de forte envolvimento com a comunidade, conhecimento das suas práticas e preocupações, de grande partilha de conhecimento e experiências, que não podia terminar de melhor forma, com um magnífico almoço. A pouco e pouco, as comunidades vão-se abrindo e acreditando nos projectos de conservação. Todavia, verifica-se uma grande desconfiança na capacitação local, por exemplo no que respeita à gestão da Cooperativa. Alguns mostram uma preocupação pela falta de transparência dos seus pares, alegando inclusive que é cultural e que a gestão devia ser externa. Não será esse certamente o caminho, pelo que há ainda um longo caminho a percorrer, bastante além da formação técnica e ao nível de relacionamento interpessoal.
Parabéns Fundação Príncipe Trust! Viva Bumbu d'Iê!

sábado, 1 de dezembro de 2018

O lado B do paraíso

Após dois meses começam a apertar as saudades de casa. Não do apartamento arrendado que deixei, mas das pessoas, das minhas pessoas, que esforço por integrar nesta odisseia, mas cujas palavras me faltam para transmitir todas estas sensações. 
É verdade que a adaptação foi bastante fácil - não sou de grandes confortos e luxos, adaptando-me rapidamente a diferentes contextos, pelo que quase não senti a escassez de serviços e de tantos bens para que me alertavam os demais. A dupla insularidade relembra-me a viver mais humildemente e em maior coerência com os meus interesses e convicções. Há alguns anos que trabalho na área da sustentabilidade e, a pouco e pouco, vou sentindo necessidade de mudar a minha vida, nomeadamente os meus hábitos de consumo. Sim, porque cresci numa sociedade privilegiada, solidária mas também egoísta, no sentido em que pouco ou nada se preocupava com a limitação de recursos ou a preservação do planeta. Felizmente os tempos mudaram: as crianças ensinam os pais que um simples gesto de separação de resíduos pode fazer a diferença; os adolescentes começam a escolher produtos, marcas e empresas que sigam boas práticas ambientais e sociais; os jovens adultos exploram o empreendedorismo para deixar a sua marca no mundo.
E, quando vivemos num contexto isolado como este - onde a reciclagem per si é ainda muito reduzida, face ao investimento necessário -, a reutilização e recuperação de resíduos ganham maior expressão. Os produtos têm sete vidas, como os gatos, seja nos brinquedos e utensílios do dia a dia seja nos pequenos negócios locais incentivados pelas ONG e líderes comunitários, numa missão conjunta #zerodesperdício. Falei há pouco na alteração de hábitos de consumo... A redução da minha pegada ecológica, como de tantos outros expatriados que por aqui passam, começa por manifestar-se na redução da quantidade de plástico que trazemos para cá, por exemplo, nos produtos de higiene. É incrível como já há alguns anos que ouço falar em champôs em barra e venda a granel, mas a azáfama da vida citadina que levava ainda não me tinha permitido parar para explorar. Hoje, sinto-me mais consciente e responsável, começo a agir em conformidade com o que defendo e isso faz-me sentir bem (sem extremismos, claro;)).
Mas não era sobre isto que vos queria escrever hoje. A minha partilha de hoje reflecte outras preocupações sociais, que me assombram à medida que vou descobrindo e conhecendo as comunidades e suas populações. Neste paraíso natural nem tudo são rosas e a segurança que atrai o turismo não é para todos. Não há criminalidade, é certo, mas  há muita violência entre os locais. Seja em casa ou até mesmo nas ruas, em cadeia, para com as mulheres, os filhos e os cães. São um povo muito aceso e os desentendimentos escalam com facilidade para gritos e agressões. A sociedade é muito machista e a fidelidade é apenas para as mulheres, que devem submissão e respeito aos seus maridos. Embora a poligamia não seja assumida como noutros países, tudo se sabe e os homens nada fazem para esconder as suas atracções e diversões paralelas. Todavia, ai da mulher que ouse sequer olhar para outro homem. 
Por outro lado, o seu calor característico fá-los perder a noção dos limites, ignorando situações de incesto e violência sexual, seja por questões de idade ou ausência de consentimento, seja inclusive por laços familiares próximos. Chamam-lhes "catorzinhas" e parte-me o coração conhecer esta realidade em pleno século XXI.
Como é possível tolerar este comportamento, ainda mais com crianças? Será que não lhes ocorre o respeito pela dignidade humana? Já se ouve, pelo menos em conversa comigo, quem discorde, mas a norma continua a ser esta. Será esta a única forma de organização social que conhecem? Faz-me pensar  em regimes ditatoriais, em que os países estão desligados da sociedade envolvente. Nem sou de causas feministas, mas aqui acredito plenamente na necessidade imperativa da capacitação das mulheres para a interrupção deste ciclo vicioso. Mulheres informadas e valorizadas saberão impor o respeito pela sua condição, educando e formando rapazes e raparigas também eles, por sua vez, mais informados e respeitadores. A capacitação aberta das raparigas e das mulheres como programa social prouz dois efeitos essenciais: primeiro, que elas saibam; segundo, que todos saibam que elas sabem. E assim que o intolerável acaba e as coisas mudam.