terça-feira, 16 de abril de 2019

Vitamina "F"

Sou uma pessoa de família! Família de sangue, família de vida. Contrariamente a muitos da minha geração - apesar da paixão por viagens, culturas e novas experiências -, emigrar nunca foi para mim uma opção. Ou melhor, o trabalho comunitário e intervenção social fez-me algumas ponderar, e até candidatar-me, a projectos internacionais. Mas de curto/médio prazo. Muita disposição de ir, desde que com garantia e data próxima de regresso a Portugal. Mas nunca encontrei algo que me pudesse dar a experiência internacional temporariamente, garantindo-me continuidade no regresso a "casa", no sentido lato - desprendida de bens materiais, mas não da minha vida, das minhas pessoas. Também nunca me imaginei a fechar a cada, deixar "tudo" e partir num recomeço. Felizmente as prioridades mudam e pude, ao longo deste ano, dedicar-me a este sonho. Contudo, por um motivo ou por outro, as saudades não tardaram em bater à porta:
1. Apesar das novas amizades e do conforto e aproximação da tecnologia, faltam muitas vezes os "suspeitos do costume", os partners in crime, os habitués da vida;
2. Acompanhar acontecimentos dos que nos são queridos à distância aperta-me ainda mais o coração, sobretudo nos momentos de dor e prova;
3. A fragilidade de uma doença mais forte fez-me sentir, pela primeira vez, falta do conforto e mimo de "casa".


Por tudo isto e mais, foi maravilhoso o privilégio de receber os meus pais, primos e amigos e poder partilhar um pouco desta experiência transformadora com todos e cada um deles. A uma semana cheia e relaxante com os pais, contracenaram dois dias relâmpago e intensos com os primos e amigos. Um miminho bom, uma lufada de ar fresco, uma força inesperada, foram absolutamente revigorantes estes momentos. 
Apresentar a ilha quase na primeira pessoa - às vezes num excesso de entusiasmo quase exasperante para quem vem de férias -, receber um bocadinho do meu mundo aqui também e sentir o calor e amizade com que os acolhem. Quase que se zangavam comigo por não visitarmos suas casas. 
Surpreendentemente, ao grupo de primos e amigos juntaram-se a Dina, uma moncó - designação dada às pessoas naturais do Príncipe. Que riqueza testemunhar o seu reencontro com primos e amigos que não via há mais de 20 anos. A Dina começou por ir uns anos para São Tomé, de onde, há 18 anos, ela e o marido rumaram para Portugal, à procura de uma vida melhor, deixando para trás 3 filhos. Todos os anos, em janeiro, o marido voltava para ver a família, mas Dina não acreditava ser capaz de os deixar outra vez, permanecendo sempre em Portugal. Uns anos mais tarde, uma filha foi para Portugal, depois um filho, ficando apenas uma em São Tomé, que se juntou coincidentemente aos restantes há 4 meses. Trabalhando para a família dos amigos do meu primo Francisco há 15 anos, rapidamente a convenceram a juntar-se nesta viagem de regresso à sua terra, mesmo depois de conseguir reunir a família novamente em terras lusas. Foi tão bom de ver a sua alegria, como de ouvir as suas recordações e lembranças de um Príncipe já tão antigo e distante.
O meu muito obrigada a todos! Pela visita, pelo interesse, pela companhia, por se deixarem contagiar por esta terra que - estou cada vez mais certa, ou não partissem todos com desejo e promessa de voltar - não deixa ninguém indiferente.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Assertividade e Empatia | Desafios da Comunicação

Desde pequenos que aprendemos a comunicar, mesmo antes de aprendermos as primeiras palavras. Comunicamos com o corpo, expressões, olhar e postura. E, com o passar do tempo, presos na linguagem ou falta dela, esquecemos-nos muitas vezes deste aspecto. Sobretudo os mais emotivos e impetuosos, como eu. Ao longo da minha vida - não só, mas sobretudo por motivos profissionais - fui desenvolvendo melhor este campo. Da gestão de equipas à assessoria de imprensa, da comunicação interna à corporativa. Os desafios foram surgindo e fui aprendendo a comunicar mais e melhor com diferentes públicos e em diferentes contextos. Nunca fui de meias medidas, mas nem sempre escolhi os momentos ou palavras mais inteligentes para cada momento. O que dizer, como me comportar, tudo se foi aperfeiçoando e melhorando com a experiência e a idade. Hoje, mais do que nunca, acredito que poemos dizer qualquer coisa a quem quer que seja, desde que o saibamos fazer adequadamente.
Apaixonada pela vida, movo-me por pessoas. Adoro conhecer diferentes contextos e culturas. Fascina-me - e, por vezes, também, desespera-me - o comportamento humano. Em mais esta experiência, pessoal e profissional, tive de me adaptar, de aprender a comportar-me, de compreender as normas e organização social, tão distantes da realidade em que cresci. Como qualquer outro processo de adaptação - minha à ilha e da ilha a mim -, algumas consegui aceitar e integrar para meu benefício, outras nem tanto, partilhando a minha visão e influenciando um pouco aqueles com quem me vou cruzando.
Já falei das crianças e do desafio que foi conquistar a sua atenção e introduzi-los num modelo de aprendizagem diferente do que estão acostumados. Creio também já ter falado do desafio geral na relação com os stakeholders, ao nível de compromissos, prazos e responsabilidades. Mas não ficamos por aqui... Eis senão quando me surge mais uma prova nesta odisseia: dar formação aos técnicos da Fundação. Um pequeno apoio em noções básicas de informática a quem deixa o mar para se estrear nesta tecnologia, logo conduziu a uma formação de Excel para outros colegas mais avançados. Aceitei, claro está, ambos os projectos. Além da resposta automática que tenho definida por natureza para os pedidos que me dirigem, era a melhor alternativa possível para o efeito. Não sendo formadora nem especialista na área, reúnia os recursos necessários - conhecimentos, disponibilidade e vontade. E, por isso, assim foi. Após umas pesquisas rápidas, criei um pequeno programa para cada um dos casos propostos, para depois adaptar às necessidades profissionais de cada um.
Já fora do contexto e idade escolar, em muito se assemelham aos alunos do clube, pelo comportamentos, como a irreflexão na resposta e a sensibilidade na interacção com o formador. De alguma forma, até talvez mais acentuado e de desafio acrescido na formação de adultos. Pontualidade e concentração, sobretudo. Telemóveis, conversas paralelas, as distracções são mais que muitas para estas crianças grandes. Mas claro, não posso nem devo generalizar. Na verdade, muitas das suas dificuldades parecem-me advir do ainda débil sistema educativo. Faltam métodos de estudo - e consequentemente de trabalho -, a capacidade de abstracção escasseia, muitas vezes até a objectividade. Em poucas horas de formação, faço o possível para lhes incutir algumas boas práticas, que considero poderem ajudar o seu dia-a-dia. O que e onde anotar; planear uma tarefa, dia ou semana; estruturar as ideias e fazer um esquema em papel antes de iniciar um trabalho, mesmo no computador. 
A maior dificuldade é sem dúvida a linguagem. Embora falemos a mesma língua, nem sempre conseguimos chegar ao outro ou nos sabemos fazer entender. Diariamente, continuo a aprender a comunicar melhor e adequadamente a cada um. 
Obrigada, Fundação Príncipe, por mais este desafio!

sábado, 23 de março de 2019

Proteção das Tartatugas Marinhas

Já vos apresentei a Fundação Príncipe, ONG local dedicada à conservação da biodiversidade da ilha do Príncipe. De entre os seus vários projectos para protecção da fauna e flora aqui existentes, trabalho mais estreitamente com o Protetuga, de conservação das tartarugas marinhas. Os aparelhos GPS utilizados na monitorização das mesmas pertencem à Arribada, constituindo uma das várias tecnologias em desenvolvimento para a conservação ambiental.
Em São Tomé e Príncipe existem três espécies de tartarugas marinhas: Sada, Mão Branca (tartaruga verde) e Ambulância (tartaruga de couro). Todas ameaçadas, em menor ou maior risco de extinção. Quem o diz é a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), que cataloga as espécies de animais e plantas consoante a sua existência na natureza. Mundialmente conhecida como a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN, permite sensibilizar a população para a vivência em harmonia com o meio ambiente, orientando boas práticas para a sua sustentabilidade. 
São várias as ameaças conhecidas para uma espécie, que podemos resumir em três principais dimensões: caça ilegal, poluição e extinção do habitat. Nos nossos projectos, centramo-nos naturalmente nas ameaças resultantes da acção humana e que, de uma forma ou de outra, podem contribuir para qualqier uma destas dimensões.
De "não preocupante" a "extinto" são sete os estatutos definidos, rapidamente compreendidos pelo semáforo de cores que os codificam. Por sua vez, o estudo de conservação de uma espécie pode ser relativo, se se referir à sua existência numa determinada zona ou país, ou absoluto, se se referir à sua existência no mundo inteiro, como acontece com espécies endémica de uma região.
Para melhor explicar o conceito de vulnerabilidade, pintamos os diferentes Estatutos de Conservação na parede da sala. No último grau, encontramos o Dôdô e o tigre da Tasmânia, duas espécies já extintas, pintadas sobre a parede. Dessa forma, as crianças compreendem melhor o impacto do nosso comportamento e a influência positiva ou negativa que podemos ter para reverter a situação.
No final, reconhecem algumas das espécies ameaçadas na sua ilha, como sejam o Búzio do Obô, o Papagaio Cinzento ou as tartarugas marinhas: Ambulância (ameaçada), Mão Branca (em perigo) e Sada (em perigo crítico). As crianças são os principais influenciadores e agentes de mudança e, por isso, esperamos contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade mais consciente e uma ilha mais sustentável.

sábado, 16 de março de 2019

Tetuga kitxi d'iê


Na língua da terra, "Tetuga" significa tartaruga; "d'Iê" quer dizer da ilha; "kitxi" é pequeno ou, melhor dizendo, torna tudo pequeno quando acrescentado a um substantivo. Neste caso, tartaruga bebé. A equipa do Protetuga organizou um campeonato de futebol interescolas pela conservação das tartarugas marinhas.
Nove comunidades, onze escolas, treze equipas, três escalões, cerca de duzentas crianças, mais de vinte voluntários, encontram-se este sábado para um encontro desportivo dos 6 aos 18 anos. 
As carrinhas do Governo e as pickups da Fundação saem cedo para ir buscar as comunidades distantes: Aeroporto, Ponta do Sol, Abade, Nova Estrela, Sundy, Montalegre e São Joaquim. Santo António e Porto Real juntaram-se a pé. À medida que vão chegando os participantes, conferem-se as inscrições e distribuem-se as t-shirts - cada equipa com a sua cor -, "mata-bicho" - duas sandes de fiambre e sumo - e as senhas para o almoço. Prepara-se o campo, dividindo-o em dois campos mais pequenos, que receberão jogos em paralelo; chegam os convidados oficiais e abrem-se finalmente as hostilidades, com uma hora de atraso face ao programa previsto. Eu assumi a responsabilidade de fotógrafa oficial. Garanto, com o apoio da equipa de voluntários, que capto cada uma das equipas escolares e passo o dia numa correria entre os jogos, que afinal se distribuem entres os dois campos improvisados no estádio e o polidesportivo, mesmo ao lado. 
Um excelente dia de envolvimento comunitário, com sol e chuva, onde não poderia faltar o pintado da terra e peixe frito para o almoço. Exaustivo, mas gratificante, apesar da, sempre injusta, decisão final em grandes penalidades. Sempre com alegria, no desporto e pela conservação!



sábado, 9 de março de 2019

Trilateração e geolocalização

O programa do Clube Arribada, de Ciência Computacional e Tecnologias da Conservação, culmina na aplicação prática dos conhecimentos aprendidos com a tecnologia GPS. Analisam a movimentação do Sokis - cão mascote da ilha - em analogia com o trabalho dos biólogos no estudo das tartarugas marinhas. 
É incrível como vou aprendendo ao longo do processo, aplicações tão corriqueiras da minha vida cujo funcionamento nunca questionei. E é esta a partilha que trago hoje, num jeito meio envergonhado e na esperança de que também alguém por aí aprenda algo com isto.
Sabem como funciona o GPS (Global Positioning System)? Por satélites, é verdade. Mas como exatamente?
A trilateração é o princípio matemático que determina a localização de um corpo ou objecto, através da informação transmitida por satélites. Para cobertura total do nosso planeta existem 30 satélites, mas não precisamos de os consultar a todos ao mesmo tempo. Para determinação da localização exacta são necessários três satélites, em que cada um deles emite a distância a que nos encontramos dele - o conjunto de pontos possíveis origina uma circunferência com o raio da distância emitida. 
Assim, quando consultamos um satélite, recebemos um vasto conjunto de localizações possíveis. Ao consultar o segundo satélite, reduzimos para duas localizações - pontos de intercepção das duas circunferências. E na terceira consulta, obtemos a localização exacta, representada pelo ponto intercepção entre os três sinais recebidos.
Na nossa sala, começámos por exemplificar o fenómeno com hula hoops, passando depois à prática com o mapa mundo cartonado sobre esferovite e uma representação física dos respectivos satélites, estudando diferentes trajectos.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Do não-birdwatch à birdlife

Mais um dia no mar, ainda mais desafiante que o anterior. O destino foram as Tinhosas - ilhas rochosas, a 22 km a Sudoeste do Príncipe, consideradas a mais importante zona de nidificação de aves marinhas no Golfo da Guiné - e a partida tinha sido agendada para as 5h30, que a logística era ainda complexa. 
Onze pessoas, incluindo duas visitantes; cinquenta pães, atum, marmelada, fiambre, bolachas, sumos e água; cinco câmaras de vigilância, para estudar o comportamento das aves e dos pescadores que frequentam as ilhas, e mais uns quantos acessórios para o trabalho de campo da equipa.
Saíamos já um dia depois do previsto, devido a questões climatéricas. O temporal de 6ª feira obrigara o comandante Vavá a adiar a expedição para o dia seguinte. Encontrámos-nos no escritório da Fundação Príncipe Trust - agora apenas Fundação Príncipe -; carregámos o carro e saímos, com mais de meia hora de atraso, em direcção à Sundy Praia, de onde o barco do hotel de cinco estrelas nos levou ao destino. Felizmente, o mar estava agradavelmente calmo, reduzindo o tempo da travessia de duas horas para uma e meia, com um incrível nascer-do-sol sobre o Príncipe.
O território é composto por duas ilhas - Tinhosa Grande, que se estende por vinte hectares, e Tinhosa Pequena, de apenas três - ambas habitadas por quatro espécies de aves. A saber: Caié-branco, Caié-preto, Paiê e Pato-marinho. 
O objetivo da visita era a monitorização dos pássaros e, assim, após o "mata-bicho" - designação local para o pequeno-almoço -, dividimos-nos em dois grupos e demos início às contagens. Na ilha grande, marcámos várias quadrículas de 100 m², em zonas planas, semi-inclinadas e inclinadas, nas quais contabilizámos ovos, crias bebés e fêmeas no ninho. A partir da amostragem, a contagem final será depois extrapolada para a totalidade dos 22 hectares da ilha. No caso do Pato-marinho, espécie mais ameaçada, o exercício é mais preciso, percorrendo a ilha toda para a contagem em rigor, sem amostragem. Esta é também a única espécie contabilizada na Tinhosa Pequena, que é efectuada pela equipa - a olho nu ou com a ajuda de binóculos - a partir do barco, devido à pequena dimensão da ilha. 
O desembarque foi um pouco assustador pela quantidade de aves a voar em todas as direcções, mas, no final do dia, a experiência foi fantástica! Confesso ter aceite o desafio por curiosidade em conhecer os ilhéus e pelo passeio de barco, que tanto gosto. Não esperava, contudo, participar no trabalho da equipa de Conservação Terrestre. Não fazia ideia do que a equipa ia fazer, nem tão pouco esperava aguentar tantas horas numa ilha repleta de aves. Foi uma bela e agradável surpresa, mesmo com a grande chuvada que nos alcançou e me fez abrigar no recanto de uma rocha.
Dever cumprido, fui a única a banhar-me nas águas do Atlântico antes de regressar. Agora, deixo-vos com as imagens destas magníficas espécies, que se refugiam nestes ilhéus isolados para procriar ao ritmo de coelhos.


sábado, 9 de fevereiro de 2019

Discovery shots and action 🎬🎥

Ontem foi dia de sair para o mar com o Guillermo e a equipa marinha. Foi tempo de conhecer o seu trabalho de investigação para potencial definição de Área Marinha Protegida. Guillermo, Bizantino, Lindo e Zélinho, na fotografia, embarcaram no que seria o último dia de amostragem do BRUV (Baited Remote Underwater Video) - uma metodologia não invasiva que permite registar a presença, abundância e comportamento de espécies predadoras de peixes. 
Saída marcada para as 6h30. Cinco câmaras GoPro, com os devidos acessórios e apetrechos, desenhados com a perícia própria de engenheiro, 3 kg de peixe e farnel para a equipa. Antecipava-se um longo e duro dia pela frente, milhas consideráveis a percorrer, para gravar os nove restantes pontos. Saímos da baía de Santo António, pelas águas cristalinas do Atlântico - surpreendentemente calmas para o costume - e navegámos em direcção ao Sul. Passámos Pontamina, Abade, Nova Estrela, Terreiro Velho, a praia Abelha e a cascata "Oquê Pipi". Entrámos em território ainda desconhecido para mim e a equipa começou a arranjar o peixe e preparar o isco. Aproximámos-nos do Boné do Jóquei - ou Ihéu Caroço -, dobrámos a Ponta Café e a Praia Grande do Infante, onde deixámos o Lindo, guarda marinho, no seu dever de monitorização das tartarugas. Estávamos, então, na principal zona de recolha dos dados em falta, onde largámos as cinco câmaras da primeira ronda das filmagens, entre Pico Negro, Portinho e Boné. Era já tempo para almoçar. Aproveitando os 90 minutos de gravação, subimos ligeiramente, para que o barco não interfisse com a circulação dos peixes. E abrigámos-nos da chuva, que entretanto nos alcançara, num longo e quente banho de mar.
O dia já ia alto quando recolhemos as câmaras e, por isso, o regresso foi também mais célere. O Lindo reembarcou, trazendo coco fresco para todos. Abriram os cocos com leves pancadas de um pau - como é que fazem isto!? - e gozámos o final da tarde numa animada e rica conversa sobre os costumes locais e as perspectivas futuras. 
Desde abril do ano passado, o Guillermo gravou mais de 280 horas de vídeo em 28 dias de trabalho de campo, captando imagens de mais de 95 espécies diferentes, incluindo tubarões, raias e polvos, que podem ver abaixo. Durante os próximos meses, continuará a analisar os vídeos para perceber a distribuição de espécies de peixes ao redor da ilha, de modo a identificar áreas prioritárias para a conservação e a gestão das pescas.
Bom trabalho, rapazes, e o meu muito obrigada pelo dia, ensinamentos e partilha.

sábado, 19 de janeiro de 2019

Viagem pela ilha grande - parte I

"Ano novo, vida nova", diz o ditado. Todavia, passadas as festividades, é tempo de voltar à secreta "terra do nunca", onde nada parece ter mudado desde que parti.
A passagem por Lisboa foi rápida, inclusive com uma viagem ainda mais intensa e interessante por Londres, mas extremamente revigorante. Contudo, esta correria de imigrante tem o que se lhe diga. Matar saudades da família e amigos, visitar os recentes pais e os que passam o primeiro Natal de coração mais apertado... A agenda era longa e o desafio estava em conciliar disponibilidades e aproveitar o tempo livre de quem sobrevive na azáfama do dia-a-dia.
Por seu lado, o regresso ao golfo equatorial, depois de umas semanas de privilégio europeu, sobretudo após a abundância da época natalícia, torna ainda mais especial este exercício de introspecção e perspectiva. O Natal é, para mim, tempo de família. Custar-me-ia bastante, se não tivesse possibilidade de ir a casa nesta altura - sobretudo no primeiro Natal sem a matriarcal avó Mimi -, mas confesso ter alguma curiosidade acerca do Natal no calor e praia, que me contam os meus alunos e amigos da terra.
Na volta, aproveitei a paragem obrigatória em São Tomé para uma pequena exploração do Sul e Centro da ilha grande deste arquipélago. Os passeios pelo centro da capital, particularmente comprar o que quer que seja no mercado, revela-se uma verdadeira experiência sociológica, pelos dialectos que se sobrepõem, pela flutuação de preços e pelas  tentativas para captar a atenção dos visitantes. A aceleração da cidade dilui-se na imensidão da baía Ana Chaves, acompanhada pela longa marginal circundante. Como não poderia deixar de ser, as iguarias gastronómicas surpreendem a cada esquina - da barriga de andala (espadarte) da Tia Léu, no parque popular, e Papafigo ao sumo de sape-sape do Xico's e limonada ou sumo de maracujá do Jasmim, junto à Casa da Cultura, sem esquecer a degustação na fábrica de chocolate de Cláudio Corallo, que apenas desilude por um lapso publicitário. Anunciam visita à fábrica e degustação quando na realidade fazem uma explicação do processo de colheita e processamento do cacau - magnífica exposição, porém sem entrada na fábrica propriamente dita. Não nos demorámos muito na cidade, pelo que não tivemos oportunidade de exibir os desengonçados passos de kizomba no Pirata (discoteca local), explorando antes a vida nocturna no Pico Mocambo, assim como a "gravaninha" de sua especialidade - cocktail de rum aromatizado, à base de cana de açúcar, preparado com gelo e lima, que rouba o nome à pequena estação seca do ano. 
A partir da cidade, cerca de 15 minutos para o interior, encontramos a Trindade e, mais adiante, a roça Monte Café, a Casa Museu Almada Negreiros - casa onde nasceu o artista e, hoje, se pode provar uma interessante degustação gastronómica de produtos locais -  e a imponente cascata de São Nicolau, que não tive oportunidade de conhecer devido às chuvas.
Seguimos para Sul, para descanso e relaxe antes de voltar ao trabalho. A estrada é longa e bastante acidentada, pelo que demorámos cerca de três horas até Porto Alegre. Na primeira metade do caminho, cruzamos Santana e a zona dos surfistas, roça Água Izé, Bombaim e São João de Angolares - onde poderá valer a pena dormir e, sem sombra de dúvida, reservar almoço do chef João Carlos Dias. Em direcção ao Sul, encontramos a alegre vila piscatória de Ribeira Afonso, mesmo à beira da estrada. Era dia de festa na comunidade - que pena já termos almocado!... Passando o ilhéu das Rolas, no qual se localiza o marco do Equador, chegamos à zona das mais bonitas praias da ilha - Piscina, Inhame e Jalé - e resorts para um pleno retiro espiritual e desova de tartarugas, como a de Couro - ou Ambulância, como lhes chamam por cá -, cujo rasto mostro na imagem.
Já tenho saudades do Príncipe, mas deixo a ilha grande com pena e promessa de voltar, na Páscoa ou no final do ano lectivo. Daí o nome da publicação. 
Até já! Leve, leve.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Balanço trimestral do Clube Arribada


Quase três meses depois do início das aulas, permanecem cerca de 50% dos alunos. Não é fabuloso, mas também não é mau. No Clube Arribada, os alunos não têm avaliação, dependendo a sua permanência exclusivamente da respectiva assiduidade. 
Um Clube extra-curricular, que oferece aulas gratuitas de Ciência Computacional, Programação e Tecnologias da Conservação, mas o que é isto, afinal? Há já três anos que o Francisco desenvolve um programa orientado para as STEM (Science, Tecnology, Engeneering and Mathematics) como introdução à tecnologia e sua aplicação na área da conservação. Sempre num registo muito prático, intercalam-se módulos com e sem computador. As actividades desenvolvidas pretendem ser análogas ao trabalho de campo em que a Iniciativa Arribada está envolvida - neste caso, com os dispositivos de marcação das tartarugas marinhas. Começámos pelo sistema binário e unidades de armazenamento de informação. Mais tarde, entre outras coisas, os alunos aprenderão coordenadas geográficas, posicionamento GPS e sistemas de rastreamento. 
Ao início, as crianças atropelam-se de entusiasmo, enquanto se adaptam a um novo regime de ensino - próximo, interactivo, colaborativo, individualizado. Há que lembrar que as turmas da escola têm mais de 40 alunos e o professor tende a permanecer no quadro a falar apenas para a meia dúzia de alunos que resista à desordem instalada. Impacientes com o dia em que poderão ver e mexer num computador, alguns acabam por desisitir ou ficar de fora por excesso de faltas, apesar dos avisos. Ao chegar o grande dia, formaram duplas de trabalho e a decepção de ter de partilhar o computador rapidamente deu lugar a um espírito de entreajuda, bem como a pequenas competições e desentendimentos próprios da idade.
A sede de aprender é imensa e os desafios enormes, quer pela natural necessidade de adaptação da linguagem, quer pela dificuldade de concentração. Mas é fabuloso ver a sua evolução ao longo do tempo e, sobretudo, a perspicácia com que uns e outros não param de nos surpreender a cada dia.
Pontos altos até agora: as novas parcerias e aulas especiais, sobre a fibra ótica e a velocidade da luz, com a CST - Telecomunicações de São Tomé, e a Skype class para Portugal, com a Park Internacional School. Para o próximo semestre, iniciar-se-ão na programação, geolocalização e espécies ameaçadas, com a tão esperada visita à praia de desova das tartarugas marinhas, enquanto os mais velhos explorarão a sua criatividade dando os primeiros passos em impressão 3D.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Um sábado ambiental

Um fim-de-semana diferente, com o projecto Bumbu d'Iê pela preservação do ambiente, promovido pela COOPAPIP - Cooperativa de Apicultores da Ilha do Príncipe - e pela Fundação Príncipe Trust. O projecto, cujo nome significa "abelha da ilha" visa promover a apicultura sustentável, que é como quem diz em equilíbrio com a natureza. 
Sabiam que antigamente (e, infelizmente, ainda hoje) se queimavam colmeias e o respectivo enxame para produzir mel? Eu, confesso, nunca me tinha questionado sobre o processo de colheita, mas não poderia imaginar tal atrocidade. Atrocidade para com as abelhas, que morrem queimadas, e para connosco, que comemos um mel impuro, com cera e abelhas à mistura. A equipa Bumbum d'Iê tem vindo a formar e capacitar os membros da Cooperativa de Apicultores para que possam desenvolver a sua atividade de forma mais cuidada, saudável e sustentável. Com o seu apoio, espera-se vir a produzir o primeiro mel sustentável da ilha do Príncipe; ou seja, o primeiro mel produzido de forma natural, sem queimar abelhas e colmeias. De que forma? Apanhando e transferindo colmeias para caixas Langstroth, nas quais as abelhas constroem os favos em caixilhos de madeira, facilmente removíveis e, sobretudo, sem prejudicar as abelhas.

Mas voltemos ao sábado... A comunidade da Ponta do Sol era o destino e esperava-nos uma manhã de actividades ambientais para envolvimento com a comunidade na conservação da biodiversidade do Príncipe. O programa indicava a realização de inquéritos sobre o conhecimento geral das abelhas e apicultura; uma ligeira palestra e apresentação do projecto Bumbu d'Iê; um filme animado para os mais pequenos e uma futebolada para os graúdos. Contámos ainda com a grande surpresa e participação especial de Martina Panisi, responsável pelo Forest Giants Project, para conservação do Búzio do Obô.
O búzio gigante - de nome científico Archachatina Bicarinata e também designado localmente por “búzio preto” ou “búzio do mato", pelo habitat onde vive - é uma espécie endémica de São Tomé e Príncipe, bastante apreciada pelas iguarias alimentares preparadas com o animal e pelas propriedades terapêuticas da sua casca. Nos últimos anos, tem-se observado um preocupante declínio da população desta espécie, classificada como "vulnerável" pela Lista Vermelha da IUCN, o mais fraco dos estatutos de espécies ameaçadas, e em risco de se tornar "em perigo".
Foi um dia em pleno, de forte envolvimento com a comunidade, conhecimento das suas práticas e preocupações, de grande partilha de conhecimento e experiências, que não podia terminar de melhor forma, com um magnífico almoço. A pouco e pouco, as comunidades vão-se abrindo e acreditando nos projectos de conservação. Todavia, verifica-se uma grande desconfiança na capacitação local, por exemplo no que respeita à gestão da Cooperativa. Alguns mostram uma preocupação pela falta de transparência dos seus pares, alegando inclusive que é cultural e que a gestão devia ser externa. Não será esse certamente o caminho, pelo que há ainda um longo caminho a percorrer, bastante além da formação técnica e ao nível de relacionamento interpessoal.
Parabéns Fundação Príncipe Trust! Viva Bumbu d'Iê!

sábado, 1 de dezembro de 2018

O lado B do paraíso

Após dois meses começam a apertar as saudades de casa. Não do apartamento arrendado que deixei, mas das pessoas, das minhas pessoas, que esforço por integrar nesta odisseia, mas cujas palavras me faltam para transmitir todas estas sensações. 
É verdade que a adaptação foi bastante fácil - não sou de grandes confortos e luxos, adaptando-me rapidamente a diferentes contextos, pelo que quase não senti a escassez de serviços e de tantos bens para que me alertavam os demais. A dupla insularidade relembra-me a viver mais humildemente e em maior coerência com os meus interesses e convicções. Há alguns anos que trabalho na área da sustentabilidade e, a pouco e pouco, vou sentindo necessidade de mudar a minha vida, nomeadamente os meus hábitos de consumo. Sim, porque cresci numa sociedade privilegiada, solidária mas também egoísta, no sentido em que pouco ou nada se preocupava com a limitação de recursos ou a preservação do planeta. Felizmente os tempos mudaram: as crianças ensinam os pais que um simples gesto de separação de resíduos pode fazer a diferença; os adolescentes começam a escolher produtos, marcas e empresas que sigam boas práticas ambientais e sociais; os jovens adultos exploram o empreendedorismo para deixar a sua marca no mundo.
E, quando vivemos num contexto isolado como este - onde a reciclagem per si é ainda muito reduzida, face ao investimento necessário -, a reutilização e recuperação de resíduos ganham maior expressão. Os produtos têm sete vidas, como os gatos, seja nos brinquedos e utensílios do dia a dia seja nos pequenos negócios locais incentivados pelas ONG e líderes comunitários, numa missão conjunta #zerodesperdício. Falei há pouco na alteração de hábitos de consumo... A redução da minha pegada ecológica, como de tantos outros expatriados que por aqui passam, começa por manifestar-se na redução da quantidade de plástico que trazemos para cá, por exemplo, nos produtos de higiene. É incrível como já há alguns anos que ouço falar em champôs em barra e venda a granel, mas a azáfama da vida citadina que levava ainda não me tinha permitido parar para explorar. Hoje, sinto-me mais consciente e responsável, começo a agir em conformidade com o que defendo e isso faz-me sentir bem (sem extremismos, claro;)).
Mas não era sobre isto que vos queria escrever hoje. A minha partilha de hoje reflecte outras preocupações sociais, que me assombram à medida que vou descobrindo e conhecendo as comunidades e suas populações. Neste paraíso natural nem tudo são rosas e a segurança que atrai o turismo não é para todos. Não há criminalidade, é certo, mas  há muita violência entre os locais. Seja em casa ou até mesmo nas ruas, em cadeia, para com as mulheres, os filhos e os cães. São um povo muito aceso e os desentendimentos escalam com facilidade para gritos e agressões. A sociedade é muito machista e a fidelidade é apenas para as mulheres, que devem submissão e respeito aos seus maridos. Embora a poligamia não seja assumida como noutros países, tudo se sabe e os homens nada fazem para esconder as suas atracções e diversões paralelas. Todavia, ai da mulher que ouse sequer olhar para outro homem. 
Por outro lado, o seu calor característico fá-los perder a noção dos limites, ignorando situações de incesto e violência sexual, seja por questões de idade ou ausência de consentimento, seja inclusive por laços familiares próximos. Chamam-lhes "catorzinhas" e parte-me o coração conhecer esta realidade em pleno século XXI.
Como é possível tolerar este comportamento, ainda mais com crianças? Será que não lhes ocorre o respeito pela dignidade humana? Já se ouve, pelo menos em conversa comigo, quem discorde, mas a norma continua a ser esta. Será esta a única forma de organização social que conhecem? Faz-me pensar  em regimes ditatoriais, em que os países estão desligados da sociedade envolvente. Nem sou de causas feministas, mas aqui acredito plenamente na necessidade imperativa da capacitação das mulheres para a interrupção deste ciclo vicioso. Mulheres informadas e valorizadas saberão impor o respeito pela sua condição, educando e formando rapazes e raparigas também eles, por sua vez, mais informados e respeitadores. A capacitação aberta das raparigas e das mulheres como programa social prouz dois efeitos essenciais: primeiro, que elas saibam; segundo, que todos saibam que elas sabem. E assim que o intolerável acaba e as coisas mudam.

sábado, 24 de novembro de 2018

Trust | Conservação e Sustentabilidade

A Fundação Príncipe Trust é a ONG local que me adopta indiretamente nesta minha missão, enquanto principal parceiro do projeto. E sim, digo "adopta" porque a ligação entre os diversos colaboradores, estrangeiros e locais, tem a força e o carinho dos laços familiares com que fui educada.
Originalmente, a Fundação foi criada pela HBD - principal empresa hoteleira da ilha, pertencente ao sul africano Mark Suttleworth, que se dedica ao turismo sustentável. Hoje, sem perder o apoio e ligação ao seu fundador, opera de forma independente, reunindo uma panóplia de apoios e patrocínios, consoante a área de actividade. 
Surgiu com o objectivo de preservar a biodiversidade da ilha, desenvolvendo inúmeros projectos de conservação marinha e terrestre. Procurando atingir o equilíbrio entre a natureza e o Homem, a Fundação Príncipe Trust visa promover o desenvolvimento económico e social das comunidades do Príncipe, de forma a capacitá-los para uma gestão de recursos mais eficiente e sustentável.
Conservação das tartarugas marinhas, promoção de apicultura sustentável, educação e sensibilização ambiental, identificação e categorização de espécies ameaçadas ou valorização de resíduos através da produção de joalharia com peças de vidro são algumas das inúmeras iniciativas que potenciam o desenvolvimento das comunidades locais. 

Esta semana, tive oportunidade de  conhecer com maior detalhe os resultados do projecto "Omali Vida Nón" - que quer dizer "o mar é a nossa vida" e se destina à conservação das áreas marinhas protegidas e fortalecimento das comunidades piscatórias -, acompanhando o Dário Pequeno Paraíso nas visitas de campo para elaboração de um pequeno documentário sobre o projecto. 

Tradicionalmente, os homens são pescadores e as mulheres palaiês (vendedoras), mas não necessariamente em parceria. Muitas vezes, senão na maioria dos casos, as mulheres compram o peixe aos seus maridos para venderem, directamente, fresco ou seco e salgado. Algumas perdem inclusive dinheiro neste processo - o que causa alguma confusão se pensarmos em termos de economia familiar -, mas é assim que a sociedade está organizada. Um dos principais impactos do projecto, que terminará em breve, foi, para mim, a promoção de ideias comunitárias, para lá da pesca,  para o desenvolvimento de fontes alternativas de sustento, das quais brotam dois negócios de sucesso: a bijuteria da praia Burras e os sabonetes artesanais da praia Abade. 
A minha aprendizagem da semana não fica, porém, por aqui... O Dário é um rapaz são tomense, que cresceu em Portugal e regressou há menos de meia dúzia de anos. Aliás, na verdade não regressou, mas anda agora entre cá e lá. Hoje, excelente fotógrafo e videógrafo, reconhece o privilégio em que  cresceu - sobretudo  quando  comparado  aos  seus pais -, mas com um crescimento bastante desafiante em vários aspectos. Uma história de vida incrível, que não me cabe naturalmente a mim contar, mas que estou extremamente grata por ter merecido tal confiança. Obrigada Dário, pelas partilhas, discussões e por tudo o que, mesmo sem querer e sem te aperceberes, me ensinaste. Estou inquieta para ver o resultado deste documentário. Sucesso!



sábado, 17 de novembro de 2018

Parque Nacional do Obô

Há seis anos, o Príncipe foi classificado como área protegida pela UNESCO e Reserva Mundial da Biosfera. Para explorar esta imensidão e beleza natural, encontramos julgo que sete Trilhos da Biosfera, que podemos explorar - preferencialmente acompanhados de guia, de forma a descobrir as suas maravilhas e a melhor preservar esta preciosidade. 
Estreei-me no #7 Oquê Pipi, um dos mais curtos e de menor exigência física, apesar de alguns trajectos mais desafiantes, que termina na fantástica cascata que lhe dá o nome. Terão de vir conhecer, pois as minhas fotografias não lhe fazem a devida justiça.

O caminho é incrível, surpreendendo-nos a cada passo pela densa floresta adentro. Beneficie da orientação do simpático Yodiney Santos, coordenador terrestre da Fundação Príncipe Trust e guia certificado, mais conhecido por Yodi. As enormes raízes do Oca, que não cabem no solo, estão por todo o lado, criando deliciosos recantos e protegendo outras espécies. O Yodi apresentoi-me várias espécies endémicas da região e outras tantas introduzidas pelo Homem, mas que nunca tinha visto até então. 

Apreciando sobretudo a paz e tranquilidade que proporciona, confesso que  não sou grande conhecedora da natureza, mas é impossível  ficar indiferente à paixão com que o Yodi partilha o seu conhecimento. Folha tatuagem, 'mulher portuguesa' ou 'não me toques' - divertido feto que se fecha ao tocar nas suas folhas -, pau água e uma dúzia de vagas e pequenos frutos cujo nome não lembro, são algumas das belezas que me chamaram a atenção, mas tenho a certeza que me escaparam outras tantas, pelo que terei de voltar para aprofundar a lição. Além do mais, há pelo menos mais seis trilhos a explorar! Aqui vou eu...



sábado, 10 de novembro de 2018

Praias de areia branca

Ainda não escrevi sobre o clima, que me tem inquietado bastante. Os 24°C indicados no termómetro parece-me 30°C, embora a humidade não seja tão forte quanto esperava. Já a chuva é mais que muita e abundante, não como as monções asiáticas que conheço. Aqui, não podemos deixar que a chuva condicione os nossos passos, ou não sairíamos de casa. Chove frequentemente a tarde toda ou até mesmo o dia inteiro.

Todavia, consegui finalmente usufruir por completo deste paraíso que me acolhe e explorar um pouco das belíssimas praias que me rodeiam, de areia branca e água cristalina. Algo que me transcende numa ilha vulcânica como esta é precisamente a cor da areia... Ainda estou para descobrir a origem.
Cada uma com a sua particularidade: a sofisticação do Bom Bom e Santa Rita, a floresta envolvente da praia Abelha, a simplicidade da praia Boi, entre outras tantas. Mas a que de facto me conquistou, e me quebra a saudade da apaixonante costa alentejana, foi a praia Banana, junto à Roça Belo Monte. Ainda estou para decifrar o quê, mas há qualquer coisa de mágico neste lugar, que me encantou desde que o avisei do miradouro acima...A praia é pequena, rodeada de coqueiros, com uma série de áreas próprias para snorkeling. Do Belo Monte pode ainda requisitar-se a utilização de caiaques, individuais ou duplos, e passear até ao hotel abandonado na praia Macaco. 
Apesar da reduzida dimensão da ilha, os acessos não são faceis, pelo que há que planear o dia em função da exposição solar. Descubro que a minha localização favorita deve ser melhor aproveitada pela manhã, embora me delicie com os últimos raios de sol da tarde numa rocha no meio do mar...
E por fim, nada como terminar o dia com um revigorante cocktail entre amigos, no miradouro do Belo Monte, com uma das melhores vistas sobre o por do sol. 
Do que estão à espera? Aventurem-se e venham conhecer este tesouro ainda meio escondido, que, julgo, não fica indiferente a ninguém que por cá passe.

sábado, 3 de novembro de 2018

Na sombra da Colonização




Por entre ruínas e a verdejante imposição da natureza que tomou posse do espaço, descobre-se o surpreendente tesouro arquitectónico das grandes roças de São Tomé e Príncipe, que representavam a grande base económica de ambas as ilhas até à independência. 
No Príncipe, parece que existiam quatro grandes unidades agrícolas - Sundy, Porto Real (que, segundo consta, produzia o melhor óleo de palma da ilha), Terreiro Velho e Infante - as quais englobavam quase duas dezenas de outras roças: São Joaquim, Paciência, Belo Monte, Nova Estrela, Santo Cristo, Montalegre, Azeitona, Santa Rita, Gaspar, Bela Vista, Nova Cuba, Ponta do Sol, Abade, Infante, Maria Correia, Lapa, entre outras... Ainda não conheço bem a sua história, mas apesar das particularidades individuais, julgo poder descrevê-las como uma enorme unidade agrícola com casa principal ou senhorial, sanzalas (casas dos trabalhadores), armazéns e outros edifícios de apoio à produção e um hospital (não sei se em todas ou apenas nas de maior dimensão. Em muitos casos, as roças principais eram suportadas por outras secundárias, espalhadas pela ilha.
Entre si, estendia-se um sistema ferroviário, que ligava e abastecia as roças principais e suas dependências. As estruturas são imponentes, de uma beleza incrível, que parte a alma ver ao abandono. Consta que, após a sua nacionalização, criaram-se cerca de 15 unidades agrícolas para dar continuidade à produção. No entanto, estas foram novamente deixadas ao abandono. Apesar de alguns esforços para a sua recuperação, a maioria permanece em decadência ano a após ano, talvez por dificuldades de gestão ou por afirmação/revolta. 
O peso do colonialismo faz-se sentir em conversa com algumas pessoas, as que se atrevem a falar sobre o tema. Achamos que a escravidão foi abolida no séc. XIX, mas parece que o trabalho forçado permaneceu até à nacionalização das roças, em 1974. Ainda assim, as opiniões divergem: há os que falam, naturalmente com mágoa, de avós em situação de escravidão, ao mesmo tempo que outros referem-se a tempos de trabalho árduo mas certas condições garantidas. Arrepia ouvi-los falar, não consigo imaginar o que pode ser crescer sem liberdade ou opção de escolha.
Por outro lado, entre as áreas da conservação e do turismo, ou mesmo pelas ruas, há uma admiração estranha pelo estrangeiro, uma submissão inerente que me faz bastante confusão. Como se os estrangeiros fossem mais aptos e melhores. Se nalgumas situações se verifica - sobretudo por maior qualificação e domínio de língua estrangeira -, acredito que a troca de experiências e conhecimentos é recíproca e igualmente rica para ambos os lados. Sabemos coisas distintas e aprendemos e crescemos em conjunto.

sábado, 20 de outubro de 2018

Clube Arribada | let's the classes begin

Decorridas as eleições, iniciámos finalmente as aulas de Ciência Computacional e Tecnologia da Conservação no Clube Arribada. Trabalhamos com uma das escolas de 2.º ciclo de Ensino Básico da cidade, Santo António II, por limite de capacidade e porque as crianças das roças e comunidades sofrem de maior dificuldade de transporte e, consequentemente, de assiduidade. 
Ao chegar à escola, são vários os desafios: a excessiva dimensão das turmas (entre 40 e 50 alunos); a escassez de professores e auxiliares, que dificulta a gestão da energia própria da idade; professores que chegam tarde, leccionando meio tempo de aula ou o que dela restar... E, para meu grande choque, as turmas organizam-se por idade. Por exemplo, os 5º A e B são compostos por crianças de 9 e 10 anos, o 5 ºC por crianças de 11 anos (que já perderam um ano) e por aí fora, por forma a compor turmas mais homogéneas. Ora, apesar de perceber os motivos inerentes a tal decisão, não deixa de me fazer confusão esta "receita para o fracasso" dos alunos com maiores dificuldades de aprendizagem. A influência e convívio entre diferentes níveis de conhecimento estimula o desenvolvimento da criança, pelo que me parece demasiado condenatório à partida. 
O sistema educativo parece-me bastante preocupante. Até há uns anos atrás, não havia ensino secundário no Príncipe e nem todos tinham possibilidade de ir para S. Tomé terminar o liceu. Hoje, essa limitação surge apenas ao nível do ensino superior. Mas, ainda assim, o nível de ensino parece deixar muito a desejar quando parece que basta terminar o ensino secundário para estar apto a ensinar uma ou outra disciplina. Há uma falta muito grande de professores e, apesar do subsídio de isolamento para incentivo à deslocação de funcionários públicos de S Tomé, não é fácil captar colaboradores para o Príncipe. As cooperações internacionais, nomeadamente com o Instituto Marquês de Valle Flôr, reforçam o corpo docente ao nível do ensino secundário. Contudo, os jovens chegam muitas vezes com uma grande falta de bases, sendo mais difícil a sua integração e acompanhamento da matéria.
Enfim, temos 16 lugares na sala e, portanto, desafiámos duas turmas de 5.º ano a participar no clube, dividindo cada uma delas em três pequenos grupos. Damos aulas práticas e procuramos desenvolver uma aprendizagem mais informal. As aulas são gratuitas, extra-curriculares e opcionais, não há sistema de avaliação e a permanência no clube é garantida pela assiduidade do aluno. Tentamos envolver os pais ou encarregados de educação dos alunos, para que os libertem das tarefas domésticas para poderem participar no clube e não faltarem sem justificação.
Recebemos 80 novas inscrições com grande entusiasmo, sobretudo por causa da utilização do computador - a que muitos só têm acesso no 10.º ano de escolaridade, na aula de TIC - que o professor Rafael se esforça por tornar apelativas e dinâmicas, apesar de só ter 4 computadores operacionais para 50 alunos... O Francisco e eu estamos a pensar numa estratégia para melhorar estas condições, espero em breve ter novidades. :)

sábado, 13 de outubro de 2018

Tira Foto

Seja pelas ruas da cidade de Santo António ou pelas comunidades adentro, embora um pouco mais reservados, a energia das pessoas é contagiante. Este jeito familiar, que faz lembrar as aldeias de Portugal, onde todos se conhecem e cumprimentam, acolhe-me tão naturalmente e faz-me sentir em casa quase que instantaneamente. Um "olá" aqui, um "boa tarde" acolá, os diálogos vão-se desenvolvendo apesar do hábito de poucas palavras: "como?" quer dizer "como está?"; "tudo" é "tudo bem"; "ainda" corresponde a "ainda não"...

As crianças correm atrás de qualquer interacção e o seu sorriso meigo rouba rapidamente o nosso coração, com um automático "tira foto" ou, nas mais ousadas, "dá-me doce" ou "dá lapiseira" - fruto do crescente turismo que, confesso, me faz alguma confusão. Não é por mal, bem sei, mas sem nos apercebermos, vamos estimulando pequenos actos de "mendigagem" e facilidade de estender a mão. Se ensinamos os nossos filhos a trabalhar para conquistar as coisas, porque não o fazemos com os filhos dos outros? 

Apelo a todos os meus amigos e familiares, que, nos seus actos altruístas e generosos, para cá ou qualquer outro sítio, envolvam por favor as entidades competentes, organizando doações com quem está no terreno - ONG, paróquia, Santa Casa da Misericórdia, entre outras - e conhece a realidade local. Ajudemos, claro, mas ajudemos a fazer crescer e desenvolver o país, ao invés de incentivar o "assistencialismo", que muitas vezes também é necessário, mas deve ser feito de uma forma organizada. Desculpem o  pequeno sermão, "mix feelings" ainda da adaptação à realidade local ;)

sábado, 6 de outubro de 2018

Behind enemy lines

Cheguei em plena campanha eleitoral, em eleições nacionais e regionais. É, por isso, um tempo bastante animado, de esperança, promessas e festa:
. Esperança q.b., pois não sinto grande envolvimento ou até interesse por parte da população (têm opinião, que manifestam de forma bastante acesa, mas não conhecem as intenções dos candidatos; simpatizam com um em detrimento de outro, mas se este outro ganhar também está bem...).
. Não consegui aceder propriamente aos programas eleitorais, mas fala-se nas ruas - sobretudo no banco da má língua, como é conhecido o banco da praça central, onde as pessoas se juntam às mais variadas horas para apanhar boleia, proteger do sol ou observar o ritmo da cidade - em melhorar as estradas, as redes de acesso a água e energia. Infelizmente, nada sobre educação ou saúde, que tanto escasseiam por aqui... Certamente que essas preocupações existem, simplesmente não predominam na vida diária das pessoas.
. Festa à boa moda africana, porque tudo é motivo para música e dança. Comícios, visita às comunidades, carros de campanha anunciam as atividades pelos bairros por onde passam. A juventude alista-se para participar na festa, vestida a rigor, mostrando o seu ritmo, entretendo e desafiando todos à sua volta.



Na Região Autónoma do Príncipe há três candidatos, mas a disputa dá-se sobretudo entre dois: o atual líder - que termina o seu terceiro mandato consecutivo - e um grande empresário da ilha. O atual presidente termina o terceiro mandato, estando no poder há, portanto, 12 anos. O povo está contente com o seu trabalho, mas acredita que é tempo de mudar e passar o testemunho. Diz-se, no tal "banco da má língua", que se rodeou de mais interesseiras e menos interessantes pessoas, que se acomodam à sua posição.
Eu, sinceramente, torço (interesseira e secretamente) pela menor alteração possível, apenas e só por questões operacionais do meu projeto. Preciso reunir com as secretarias de Assuntos Sociais e Educação, pelo que qualquer alteração implicará o atraso no início das aulas do meu projeto. Seja o que tiver de ser, para e pelo Príncipe.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Onde é o paraíso


Foi no Golfo da Guiné, na linha vulcânica dos camarões, a 140 km de São Tomé, que encontrei a paradisíaca ilha do Príncipe, inicialmente denominada de ilha de Santo Antão. 142km2 de uma riqueza sem igual e várias comunidades num total de 8 mil habitantes para conhecer nesta nova odisseia.
Parto numa experiência educativa, de aplicação da tecnologia à conservação ambiental, para crianças dos 10 aos 12 anos de idade. Parece que vim para ensinar, mas certamente voltarei com uma bagagem maior do que a que trouxe.
Cheguei há menos de uma semana... partilho as primeiras impressões:
- Não tem savana nem animais grandes, como a África que conheço, mas uma paisagem densa verdejante, que constitui a primeira reserva mundial da Biosfera da UNESCO.
- A cidade de Santo António é bastante pequena, a rotina faz-se a pé tranquilamente, mas os acessos e transportes para fora da cidade são mais complicados. A chuva frequente e a falta de manutenção das estradas dificulta a condução aos tradicionais motoqueiros.
- As pessoas são alegres, puras e de uma hospitalidade imensa. As caras novas saltam à vista facilmente e a curiosidade fala alto para saber o que a "brrranca" (carregam nos "erres" de uma forma muito peculiar) vem para cá fazer.
- Os multibancos só aceitam cartões locais e, à excepção de um ou outro hotel de luxo, as transacções são todas em dinheiro. Numa ilha ainda pouco virada para o turismo, a dupla insularidade faz-se sentir nas mais pequenas coisas, como o tomar um simples expresso, manteiga a 5€ no supermercado, entre outros.
- A comida é muito boa, de forte influência cabo verdiana (como 80% dos habitantes da ilha), embora, contrariamente ao que a fertilidade do solo faz esperar, sem grande variedade de fruta e legumes.
- Há música e festa por todo o lado, sobretudo agora (plena campanha eleitoral).
Foi uma semana rica, atípica, cheia de sensações, percepções e sentimentos para digerir...
Sem pressas, leve-leve, como manda o lema da ilha:)

Contudo, se se quiserem antecipar ou aprofundar a minha escrita, convido-vos a lerem os contos "Fyá Xalela", da magnífica Olinda Beja, que me ofereceu a minha antiga equipa da Sair da Casca. Queria ter lido no verão, antes de vir, mas ainda bem que não o fiz. Exímia contadora de histórias por excelência, a autora envolve-nos a cada página neste legado tão precioso e singular  que lança para o mundo. A sua descrição sensorial e realista aproxima qualquer leitor dos personagens, de tal forma que nos apropriamos da história como se fosse a nossa. Consequentemente, recomendo que prolonguem a leitura ao longo dos tempos, não porque a escrita seja pesada, antes pelo contrário, mas para que se possam deixar levar pelo universo criado e relacionar com os personagens apresentados. Os mais curiosos poderão ainda  deliciar-se com os sábios tradicionais provérbios, escritos em Lung'Iê (língua da ilha), que antecipam cada conto.